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Palavras não tão mágicas

  • Writer: Neris Reis
    Neris Reis
  • Jul 30, 2020
  • 7 min read

Ai, as palavras. Tão mágicas que só elas. E não, não sou só eu que estou dizendo. Quem disse isso para mim foi quem mais entende de palavras e de mágicas. Com a palavra mágica, Alvo Dumbledore:


“Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de formar grandes sofrimentos e também de remediá-los”.

Na boa, eu podia parar o texto por aqui, justificar que escrever mais qualquer coisa, portanto, se tornaria desnecessário, uma vez que um dos maiores bruxões de todos os tempos já lacrou e só parar para aconselhar todos vocês a ensinarem interpretação de texto aos seus filhos, uma mágica que faz toda a diferença para toda a vida – e se vocês não sabem interpretação de texto o suficiente para ensinar, pediria que valorizassem quem os ensina. Mas vou aproveitar do espaço para me alongar por mais alguns parágrafos e mostrar que Dumbledore sempre esteve certo.


De fato acredito que as palavras são mágicas e é por isso que dedico um tanto do meu tempo a elas. Porém, como toda mágica, existe o lado bom e existe o lado ruim – como diria Sirius Black, luz e trevas dentro de você e blá blá blá (vão ler Harry Potter e parem de me encher o saco!) – e, principalmente, existe o lado misterioso.


Vou começar explorando o mistério. Já adianto que vou falar muita potoca. E essa frase anterior não foi só para chamar atenção pelo que vem adiante. Ela (agora é a penúltima frase anterior) foi escolhida cuidadosamente só para eu colocar a palavra “potoca” no meio. São palavras como “potoca” que a gente vê o tanto que a língua portuguesa é incrível. Olha essa sonoridade. Experimente falar “potoca” sílaba por sílaba, reparando no movimento da boca. É quase uma mistura da sensação de abrir uma garrafa de champanhe montado em um cavalo em pleno trote ritmado. Uma grande besteira assim como é o próprio sentido da palavra “potoca” – isso é mágica. E ter essa mágica em dizer uma palavra com essa sensação é um grande mistério.


Parêntese: achou que eu ia falar que palavra tem poder, né? Falhou vigorosamente, porque eu não entendo disso e poder da palavra é um mistério que não domino. Então, amém, namastê e saravá.


Continuando no mistério, tanto para o bem, quanto para o mal, existem as palavras que surgem com um sentido de solucionar um problema e logo em seguida essa palavra se torna um problema. Achou literalmente confuso? Então estamos na mesma página, porque quero falar da palavra “literalmente”.


Não sei como e quando ela começou a ser usada no vocabulário, mas imagino que fosse para dar ênfase e evitar confusões em alguma história que estava sendo contada, deixando claro que não se tratava de uma metáfora e que era exatamente aquilo que estava acontecendo. Inclusive, uma vez eu contava uma história em que eu encerrava com um final não-literalmente épico:


Aí eu fiquei literalmente todo cagado.


Uma amiga prontamente tentou me corrigir:


Amigo, você não tá fazendo uso correto da palavra literalmente.


Não me restou outra alternativa a não ser confirmar:


Estou fazendo o uso correto sim, eu fiquei realmente todo cagado.


É claro que essa história não existe literalmente mas foi o melhor recurso que encontrei para explicar a confusão causada. Acontece que agora as pessoas usam a palavra “literalmente” para se referir ao sentido figurativo e não sei se elas se dão conta disso, o que pode causar aberrações, apesar da melhor das intenções. Exemplo de frase sem “literalmente”:


O presidente é um bosta.


Sem o uso do “literalmente” dá para entender o sentido da frase, porém, ela carece de um pouco de ódio. Acredito que por isso muitas pessoas fazem uso do advérbio para dar uma intensidade necessária:


O presidente é literalmente um bosta.


Viu como mudou? Infelizmente, o presidente em questão é realmente um ser humano do pior tipo, o que o coloca até mesmo em uma categoria muito parecida com estrume, mas no frigir dos ovos da língua portuguesa, o uso do literalmente está incorreto – apesar de ser uma forma totalmente compreensiva e até mesmo pertinente de uso.


No mesmo tópico de usar palavras que tem um tipo de uso e que muitas pessoas acabam usando em outro sentido, temos a palavra “através”. A magia aqui se torna confusa porque a palavra “através” é usada para algo que atravessa ou passa literalmente (rs) por alguma coisa, como um espelho, um vidro ou qualquer meio físico que realmente existe. Por exemplo:


A faca passou através do abdome.


Nesse caso, estamos explicando que uma facada acontece quando a faca passa através de um meio físico, portanto, o emprego da palavra está correto. Porém, muitas vezes, as pessoas usam o “através” de maneira equivocada, no sentido de “por meio de”. Explico:


Ex-assessor parlamentar recebeu mais de R$ 2 milhões através de 483 depósitos.


Aqui, o uso do termo é incorreto, porque o sentido que a frase quer passar é de um intermediário. O correto, de acordo com a língua portuguesa seria:


Ex-assessor parlamentar recebeu mais de R$ 2 milhões por meio de 483 depósitos.


Infelizmente é muito difícil deixar essa frase ainda mais correta, já que seria brigar com os fatos. De todo modo, acredito que consegui explicar.


Seguindo o raciocínio, existem também as confusões que só aparecem na forma escrita. Uma muito comum é a na forma correta de acentuar algumas palavras. Por exemplo, em um momento de fúria, é capaz de alguém deixar um comentário nas redes sociais da seguinte forma:


Ei, Bozonaro, vai tomar no cú!


Acredito eu que este acento é quase uma extensão da exclamação, uma forma de enfatizar indignação, fruto de uma vontade genuína de ofender, colocado no calor das emoções. Mas neste caso, está incorreto. Para nunca se esquecer, lembre-se da máxima de que se no assento vai o cu, no cu não vai acento. É ou não é de cair o dito cujo da bunda?


Dando uma relida em tudo o que escrevi até aqui, acho que acabei pegando pesado com os exemplos. Vou tentar voltar a exemplos mais pessoais e leves para tentar me adiantar e não cair em tentação.


A verdade é que as palavras da língua portuguesa pregam peças em todos, como aconteceu com o nosso querido Alfredinho no conto que publiquei aqui no blog semanas atrás, em que o personagem não sabia que a flexão correta do verbo “ouvir” na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo é “ouço” e não “ouvo”. E são inúmeros os verbos irregulares que temos que não fazem nenhum sentido para mim e nem para Alfredinho, tipo a flexão do verbo “escrever”, que no particípio é “escrito” e não “escrevido”. Chato, né? E tudo isso que tá escrito nesse parágrafo também tá muito chato, então, vamos adiante.


Um bom lugar de se ter mágica acontecendo é a cozinha. E nesse ambiente as palavras fazem toda diferença. Adoro ver vídeos e programas de culinária para tentar aprender alguma coisa e replicar receitas na prática. Nessas horas, o sentido das palavras pode causar confusões. Uma coisa que nunca entendo é a verdadeira medida do “fio de azeite”. Sempre tem algum chefe que fala “agora é só colocar um fio de azeita” e pá: despeja um tanto de azeite que eu usaria em umas cinco refeições e ainda sobraria um pouco para passar na pele e pegar um bronze tal qual os gregos faziam – fora que azeite pode ser gostoso, mas não é barato não. Será que assim como a medida do sal é “a gosto” a do azeite é “fio”?


Foi também neste ambiente que mágicas aconteceram com o nome de alguns objetos. Com destaque para as nossas tradicionais cumbucas, que quando mais refinadas eram chamadas de tigelas, mas, sem que percebêssemos, passaram a ser chamadas de “bowls”. Só me dei conta disso quando me falaram “me passa o bowl, por favor” e eu fiquei sem entender do que se tratava. Apontaram, então, para o objeto e eu entrei em parafuso por entender que aquilo era sim um bowl e eu não me lembrava mais que eu chamava aquilo de cumbuca até outro dia. Não sei ainda se foi uma troca desnecessária ou se é o sinal de evolução dos tempos.


Falando em cozinha, também foi só outro dia que descobri que aquela concha furadinha que a gente usa para fritura e até para pegar o arroz se chama “escumadeira” com C e não “espumadeira” com P, o que me tornou uma chacota – não é porque eu gosto de escrever que saber a forma correta das palavras se torna algo fácil para mim. Além do mais, sou de peixes, preciso de um desconto na minha dislexia natural trazida pelos astros.


No caso da escumadeira, é tudo uma questão de sonoridade (não confundir com sororidade) e de minha completa falta de atenção. E em tempos atuais, esse tipo de confusão sonora pode causar uma grande confusão mental. Por exemplo, no diálogo:


- Eu vim com minha mãe, peguei carona.


- O quê? Pegou corona?!


No fundo, somos todos Velhas Surdas e ouvimos o que queremos, talvez por mecanismo de defesa, talvez por estarmos sempre com a guarda alta em relação a alguns assuntos, mas isso é outra pauta. E já que falamos em confusão sonora, existem dois recursos mágicos que tornam as palavras ainda mais mágicas na sonoridade. De novo: para o bem e para o mal. Estou falando do aumentativo e do diminutivo.


Começando pelo aumentativo. Um dos meus preferidos de todos como bom botequeiro (leia com calma para não ler errado, por favor!), é o famoso litrão que a gente pede (ou pedia em tempos normais, se você for um ser humano com as faculdades mentais normais o suficiente para evitar frequentar ambientes públicos sem máscara) ao sentar na mesa do bar. Acontece que o litrão contém exata e unicamente um litro de cerveja, o que torna esse aumentativo um aumentativo ilusório. Se o conteúdo líquido fosse de 1,2L (sendo pessimista) ou 1,8L (sendo otimista), talvez essa modalidade de cerveja faria mais jus ao apelido adquirido. Entretanto, trocando em miúdos, a forma de tratamento da garrafa de um litro de cerveja ser no aumentativo torna a experiência de ir ao bar mais mágica e satisfatória.


Um adendo: se o conteúdo que vai ser consumido é cerveja, substantivo feminino, e está armazenado em uma garrafa, também substantivo feminino, por que não usar uma flexão do litro também no feminino? Quando a pandemia passar, experimente ir ao bar e dizer:


Meu consagrado, me vê aí uma litrona de Antárctica! Mas é aquela lá do fundo do freezer, hein?


Ainda nos aumentativos, existem outros que não são tão ilusórios assim, que mostram o tamanho da sujeira que você está enfrentando, como o mensalão, o petrolão ou até mesmo o timão (brinks esse último – ou não).


E assim como os aumentativos, os diminutivos também fazem das suas. Existem os diminutivos que exercem sua magia para o bem, como aquele bom e velho conjunto de 300 segundos que mesmo no diminutivo, continuam tendo o mesmo período de tempo:


Ah, não, só mais cinco minutinhos.


Mas não se deixe enganar. As palavras, até mesmo nessas formas mais carinhosas, carregam sentidos perversos, devastadores, causadoras de verdadeiras “rachadinhas” na nossa sociedade. Ou vai me dizer que você ainda acha que tudo isso que estamos passando nos últimos meses é só uma “gripezinha”?

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1 Comment


angelicastro
angelicastro
Aug 02, 2020

nemli nemlerei (o harry potter). O texto ficou bem divertido, dei boas risadas. parabéns!

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